É O Cara, mas... - Blog da Fórmula-1 de Daniel Dias - Dias ao Volante

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É O Cara, mas...

Dias ao Volante
Publicado por em F-1 e Indy ·



Conheci o italiano Alessandro Zanardi, o grande bicampeão da F-Indy em 1996 e 1997, pela Chip Ganassi – quando a Indy era a Indy, não essa categoria meia-boca de agora -, em 2001, nos bastidores do GP de Monterrey, no México. Era o ano de 2001, e o italiano, então com 34 anos, voltava para a categoria que o consagrou após uma nova tentativa frustrada na Fórmula-1. Naquele ano, o Zanardi seria companheiro do brasileiro Tony Kanaan, na equipe Mo Nunn. Fui convidado para cobrir a corrida da Indy pela equipe de Kanaan, e pude, então, conviver com os dois pilotos nos três dias de evento no circuito de Parque Fundidora. O extrovertido e sempre brincalhão Kanaan não foi uma surpresa para mim. A surpresa veio com Zanardi, dono de uma simplicidade e uma humildade impressionantes, apesar de já contar com dois títulos na categoria norte-americana. O italiano é tatibitati para falar. Nos boxes, conversei mais com o Zanardi, que demonstrou sempre uma imensa humildade e sempre solícito para qualquer pergunta ou curiosidade técnica sobre o carro da Indy. A conversa mais extrovertida com o Kanaan veio em um juntar informal que a equipe promoveu com os jornalistas brasileiros que estavam fazendo a cobertura da primeira etapa daquele ano.
Sim. E aquele ano seria o pior para Alessandro Zanardi. No GP da Alemanha, no oval de EuroSpeedway, Zanardi voltava de um pit stop quando deixou o carro escorregar ainda com pneus frios e foi atingido em cheio na lateral direita pelo canadense Alex Tagliani. O choque terrível foi exatamente na altura das pernas de Zanardi. Eu estava de plantão no jornal naquele sábado, dia 15 de setembro de 2001, e entre um trabalho e outro acompanhava a prova da Indy que passava ao vivo nos monitores da redação. Vi o acidente na hora. Pelas imagens da TV, poucos poderiam acreditar que os dois pilotos tivessem escapado com vida daquele horror. Tagliani teve ferimentos na desaceleração (bateu de frente), enquanto Zanardi ficou preso na parte de trás do seu carro, que se partiu ao meio. Os paramédicos da Indy – costumeiramente, os melhores do automobilismo, pois as provas em circuitos ovais têm um alto grau de risco, a todo o momento – que chegaram ao carro do italiano temeram pelo pior. Depois de um resgate cuidadoso e uma imediata hospitalização, foi possível salvar a vida do bicampeão, mas não suas pernas.
Após quatro ou cinco dias de sucessivas cirurgias, todos estavam ansiosos pelo momento em que Zanardi – casado e pai de um filho de quatro anos, na época – voltasse à consciência. Após despertar, Alessandro olhou para toda a equipe médica, que explicou como ele estava de saúde e que havia perdido as pernas, olhou mais atentamente para a esposa e o filho e disse uma frase – com toda a calma, serenidade e lucidez - que ninguém pode esquecer e se transformaria em uma lição de vida:
- Tenho vocês dois, e está tudo bem!
A carreira de Zanardi no automobilismo regular estava terminada ali. Mas o italiano decidiu que continuaria vivendo o mais normalmente possível. Com carros adaptados, competiu no WTCC (Turismo) por cinco anos e se tornaria o primeiro piloto de F-1 a participar da paraolimpíada, na qual, aliás, conquistaria várias medalhas no ciclismo.
Pois é! Agora, aos 53 anos, Zanardi sofreu mais um acidente muito grave, durante uma etapa de uma prova de paraciclismo em Pienza, na Itália. A bicicleta adaptada de Zanardi se chocou violentamente contra um caminhão. Zanardi desembarcou do helicóptero de resgate no hospital Santa Maria alle Scotte com traumatismo craniano, rosto esmagado e um osso frontal da cabeça profundamente quebrado. "A condição de Zanardi é séria, mas estável", disse Giuseppe Olivieri, médico que operou o ex-piloto e bicampeão da Indy.
Amigo Zanardi, mais uma vez caio em profunda tristeza e preocupação com você. Por outro lado, gostaria de dizer uma coisa para o amigo: há muito tempo, você não precisa provar mais nada. Nos tempos gloriosos de Indy, você brilhou com atuações gigantescas, sendo imbatível por dois anos seguidos. No retorno à vida no hospital da Alemanha, em 2001, você mostrou o tamanho que tem e do que você é feito. Sim, existem superhomens não nascidos no planeta Kripton, de carne e osso. Você é um deles! Muito provavelmente, o maior deles. Os múltiplos exemplos de superação – um atrás do outro – que você mostrou depois daquele fatídico dia 15 de setembro na Alemanha foram maravilhosos e emocionantes. Continuaremos todos torcendo por você, em qualquer atividade em que você esteja envolvido. Mas, agora, chega, meu amigo! O ciclismo de estrada é um dos esportes mais perigosos do mundo. E o paraciclismo, então, nem se fala!
Alex, você sairá de mais essa. Mas, para, vá viver, vá se divertir! Você já mostrou que tem uma vida absolutamente normal. Então, viva!



6 comentários
Média dos votos: 165.0/5
Mauro
2020-07-02 12:44:48
Nota 10. Grande Daniel. Abraço
Mauro
2020-07-02 12:44:17
Nota 10. Grande Daniel. Abraço
Daniel Dias
2020-06-30 16:42:59
Obrigado, campeão Nata. O Zanardi é de arrepiar.
Natanael Felipe Rhoden
2020-06-30 15:01:04
Zanardi saía de um "splash and go" apenas para concluir a prova, a transmissão corta para o carro de Kenny Brack e quando retorna só vemos o carro de Zanardi rodando em direção a pista e sendo acertado em T pelo carro de Alex Tagliani, porém a pancada foi na parte dianteira do carro de Zanardi e levou suas pernas. Se puder assistir ao Bola da Vez em que Zanardi foi o entrevistado, aliás o programa foi exibido dias antes desse novo acidente, verá tudo o que foi narrado pelo Daniel Dias nesse texto quanto a simplicidade e exemplo de vida. Segura o italiano. Abraço e chega logo o fim de semana pra assistir a volta da F1
Daniel Dias
2020-06-21 21:24:15
Pô, Maurício, assim, o Zanardi ficará vivo e eu que morrerei, do coração. Muito obrigado, não mereço tanto.
Maurício Dias
2020-06-21 21:02:40
Que texto e reportagem incrível Daniel, emocionante depoimento teu sobre este Heilander e pessoa expcional que é o Zanardi, tu é um privilegiado te ter tido contato pessoal com este grande piloto. Parabéns só um jornalista tão especial como tu faria um texto tão incrível !

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